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SC Transplantes: Vinte anos prolongando vidas

Durante uma viagem a trabalho no Japão, o fotógrafo Antônio Carlos Mafalda não se sentiu bem. Em um compromisso na embaixada brasileira, onde cobria uma missão do governo do Estado de Santa Catarina, pediu apenas um chá.

30/11/2019 15h57
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Por: Jean de Souza Fonte: Agência Alesc/Assessoria
Fotógrafo Antonio Carlos Mafalda é exemplo do trabalho da SC Transplantes, homenageada na noite de quinta-feira. Foto: Agência/Alesc
Fotógrafo Antonio Carlos Mafalda é exemplo do trabalho da SC Transplantes, homenageada na noite de quinta-feira. Foto: Agência/Alesc

Não era nada demais, pensou, e ele não queria incomodar. Dois dias depois, em Florianópolis, acordou com um forte sangramento e foi levado às pressas para o hospital, onde passou um dia inteiro fazendo exames, mas não surgiu um diagnóstico.

Viajou para São Paulo, onde buscou auxílio no Hospital Israelita Albert Einstein. Mais quatro dias de testes e veio a notícia. Com três tumores no fígado, ele tinha apenas oito meses de vida.

Isso foi em 2013. Na noite desta quinta-feira (28), aos 71 anos, Mafalda demonstra ter a mesma energia que tinha aos 30 anos, quando, sem falar uma palavra em italiano, conseguiu entrar no local onde estava sendo julgado Renato Curcio, membro das Brigadas Vermelhas, para fazer a única foto do guerrilheiro captada durante o julgamento na cidade de Turim.

A saga de Mafalda é um dos muitos exemplos da importância da SC Transplantes, a unidade vinculada à Superintendência de Serviços Especializados e Regulação da Secretaria de Estado da Saúde que, por 12 anos, é recordista no Brasil na incomparável arte de prolongar com qualidade e viabilidade a vida de pessoas condenadas pela medicina.

O trabalho de excelência da instituição foi oficialmente reconhecido em uma sessão especial da Assembleia Legislativa.

Em São Paulo, o veterano fotógrafo obteve um diagnóstico, mas a solução para o problema estava, como lhe disseram “no quintal de casa”.

Sem vagas no Albert Einstein e com a certeza de que uma mera cirurgia era hipótese descartada, apenas um transplante no Hospital Universitário (HU) da Universidade Federal de Santa Catarina garantiria alguma chance de driblar a morte.

“Ao falar do HU me emociono. É a minha segunda casa. E em hospital é difícil, é muita coisa, muita pressão psicológica. Mas o HU é muito humano. Lá tratam bem todo mundo”, comenta.

Mafalda começou com 70 pessoas na sua frente na fila de espera pelo transplante. A primeira chance não se consolidou, pois não havia plaquetas suficientes para a operação. Dez dias depois, veio a oportunidade adequada. Transplante feito, após cinco dias seu organismo rejeitou o órgão. Apesar da dúvida se valeria a pena uma cirurgia devido ao estado de saúde do paciente e dos riscos que isso gerava, a decisão firme dos médicos garantiu o desfecho esperado. “Tive a sorte que encontraram uma artéria entupida. Cortaram e colaram. Foi longa a recuperação, mas fui abençoado”, lembra o novo Mafalda.

Do Japão ao completo restabelecimento, até a retomada de uma vida normal, passaram-se dois anos. Para ele e todos que estão diretamente conectados à SC Transplantes há uma certeza comum. É a importância de que cada cidadão, e suas famílias, aceitem ser doadores.

O empresário Jócio Martins, que na sessão especial falou em nome de familiares de doadores, citou que não conhecia a unidade até seu filho, Tiago, perder a vida aos 20 anos, em 2012.

“A importância é muito grande do trabalho [feito pela SC Transplantes]. As pessoas precisam saber, ter conhecimento da necessidade da doação de órgãos.

Muitos aguardam uma oportunidade e, no momento que chega um órgão, o sofrimento acaba. É necessário divulgar ao máximo para que aumente cada vez mais o número de doadores”, afirma.

O coordenador estadual do SC Transplantes, Joel de Andrade, concorda que não há dúvida sobre o impacto causado pelas campanhas de conscientização.

Mas, avalia, o diferencial do sistema catarinense é o modelo de gestão, baseado de uma maneira muito forte na educação dos profissionais de saúde.

“Essa é a chave do sucesso. As doações ocorrem à medida que estes profissionais podem identificar a morte encefálica, fazer o diagnóstico da forma correta e, principalmente, que saibam acolher as famílias e tratá-las com dignidade, com respeito, com carinho.

Disso, derivam as doações. É o modelo que adotamos há 15 anos aqui em Santa Catarina e, por 12 anos, fomos o melhor do Brasil”, argumenta.

Proponente da sessão especial, o deputado Coronel Mocelin (PSL) justifica a homenagem pelo que considera “um belíssimo trabalho” promovido pela SC Transplantes.

“Para que isso possa ser viável, muitas outras entidades estão envolvidas, como o Corpo de Bombeiros, a Polícia Militar, o governo do Estado, a Secretaria de Estado da Saúde. Todas as pessoas que fazem parte disso estão sendo homenageadas hoje.

Santa Catarina é uma referência nacional em um trabalho que ameniza a vida de muitas pessoas e ajuda todos a se sensibilizarem, aos familiares e às próprias pessoas que em vida se declaram como doadores”, explica.

De volta ao trabalho e à vida de amor com sua família e seus muitos amigos, Mafalda não tem dúvidas. Um transplante só é sucesso se o paciente também contribuir.

“Esse é o apelo que eu faço. Além da população, das famílias se conscientizarem sobre a necessidade de doar os órgãos, a pessoa também tem que colaborar.

Fazer o que os médicos pedem. Não transgredir as regras, não ter mal-estar, não ser um burocrata de si, dizendo que está doente. Transplante não é doença!

É um momento que tu estás passando”, argumenta. Para ele, a celebração do Parlamento catarinense é um ato político. “E a SC Transplantes só vai ser grande, como é, se politicamente for ajudada.

A população tem que saber o valor disso, esse apoio da Assembleia Legislativa, dos representantes do povo, é muito importante. Isso não tem ideologia, não tem religião. É doação de órgãos”, conclui.

Desde a criação da SC Transplantes, mais de 15 mil pessoas receberam órgãos e tecidos, aumentando suas vidas. Nos primeiros dez meses de 2019 foram registradas 262 doações de múltiplos órgãos.

Em setembro foi registrado o melhor desempenho em 20 anos de história da unidade, com 43 doações efetivadas. Hoje, a fila de espera por um órgão está em quase 600 pacientes.

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